
“Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
– O gesso muito branco, as linhas muito puras –
Mal sugeria imagem de vida
(embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina
amarelo-suja.
Os meus olhos de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
Recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
mordente de pátina...
Hoje esse gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.”
Forte esta ultima frase, né?! No mínimo nos faz refletir, exatamente o propósito deste espaço.
Quando fazia o 3º ano do ensino médio comecei a me interessar por poesia. Achava interessante essa maneira de dizer coisas metaforicamente, ou frases que deixam coisas subentendidas. Lia algumas coisas aqui e outras ali, mas com pouco entendimento sobre poesia em si; na maioria das vezes nem entendia o que elas queriam dizer...
Lembro que, já na faculdade, fui à biblioteca publica pegar alguns livros. Uns dois de Drummond de Andrade e um do Manoel Bandeira.
Como não sabia ler poesia, em três dias já tinha lido os dois do Drummond, fui para o do Manoel bandeira; lembro que era uma coletânea do que ele tinha de melhor.
Lia aqueles versos, e muitos não faziam sentido, assim, pouco me detia neles. Mas certa página tinha uma poesia chamada "Gesso", não era extensa. O que sei que quando terminei de ler, aquela frase, não sei por que, retumbava em minha mente. Lembro dela até hoje.
Acho que todos nós já passamos por situações complicadas nesta vida. Às vezes algumas nos destroçam, outras, apenas tiram lasquinhas, mas sempre acabam mexendo conosco e fazendo-nos sentir sentimentos que nunca tínhamos sentido, pensamentos que nunca havíamos pensado. São momentos que expõe o que somos na realidade. Na Bíblia conhecemos essa situação simbolizada pelo deserto, lugar onde há necessidade, onde se sente sede, fome, frio e extremo calor, porém, lugar de teste. Mas o que isso nos ensina é que o deserto é um lugar de crescimento espiritual capaz de nos revelar coisas que os nossos olhos não viam, lugar que desenvolve maturidade espiritual que nos prepara para o que vem pela frente. Não tem como falar sobre sofrimento e quebrantamento sem citar Jó. Este homem passa pelas maiores tragédias e angustias que um homem pode passar, mas foi fiel até o fim, tomando toda a sua experiência de vida como uma crescimento que o levou mais perto de Deus.
O que quero dizer é que: muitas vezes temos que passar por situações e caminhos difíceis para alcançarmos a terra prometida. Ou até, irmos para o deserto apenas para iniciar a jornada.
Quando penso na estatuazinha de gesso descrita por Manoel Bandeira, vejo pessoas que crêem que é possível viver sem problemas. Mas vejo também a vida que é gerada pelo quebrar da estatua. Assim entendo como é verdadeiro o que o Poeta exclama para finalizar: “... só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”. Não Pelo negativismo de acreditar que sofrimento são obrigação e necessidade. Mas pelo Positivismo de que podemos crescer, amadurecer ou nos fazer entender que isso é, nada mais nada menos do que: A VIDA.
Se um dia quiser decorar uma poesia, decore esta.
Abraço pessoal!!
